domingo, 12 de janeiro de 2014

Judiarias de Coimbra!


COIMBRA


Cidade portuguesa banhada pelo Rio Mondego, situada na região da Beira, 
com cerca de 143.400 habitantes.


No século VIII é ocupada pelos Mouros, tornando-se num importante entreposto comercial entre o norte cristão e o sul árabe/muçulmano. Em 971 torna-se Condado de Coimbra, mas apenas em 1064 a cidade é de vez reconquistada por Fernando Magno, rei de Leão e Castela.

Existe um documento do ano 950 em que o Conde Ximeno e sua mulher, Adosinda Guterres, doaram ao Mosteiro de Cela Nova prédios pertencentes a Judeus em Quires (Taveiro), nas redondezas de Coimbra. Em 1099, a aldeia de Enxofães, hoje freguesia de Murtede, no concelho de Cantanhede, é dita "villa que est de illos Hebreus" (aldeia que é dos Judeus).


Porém, a primeira atestação documental da presença judaica em Coimbra é a carta de demarcação da paróquia de S. João de Santa Cruz de 1139. Segundo este documento, o bairro judeu tinha cemitério próprio, o seu almocávar.

Nessa altura Coimbra apresentava uma estrutura urbana. A Universidade, que D. Diniz fundara em Lisboa, com a designação de Estudo Geral, no final do século XIII, esteve alternadamente entre Lisboa e Coimbra, até à sua fixação definitiva nesta última cidade por ordem de D. João III, em 1537.

Em Coimbra existiram duas judiarias: a velha e a nova. A Judiaria Velha estava situada fora das muralhas, entre a Porta de Almeida e Porta Nova, na encosta que hoje tem, como arruamento principal, a Rua Corpo de Deus. A Judiaria Nova situar-se-ia na zona entre Sansão, a norte da actual Rua Direita, e o Arnado.



Judiarias de Coimbra.


Na Judiaria Velha de Coimbra existiu uma sinagoga, que para alguns teria funcionado no local ou perto do local em que em 1360 se ergueu a Capela da Nossa Senhora da Vitória, uma carniçaria e uma albergaria para doentes e necessitados. Um pouco mais afastado estaria o cemitério judaico. Nesta zona, junto ao jardim da Menga, ainda persiste um local chamado de Fonte dos Judeus. Talvez houvesse Judeus fora desse bairro, mas os mesmos concentravam-se maioritariamente naquele bairro.


Capela de Nossa Sra. da Vitória, vista da R. do Corpo de Deus.


Para além da que hoje se chama Rua do Corpo de Deus, teria existido um "caminho que vai para a ermida do Corpo de Deus", hoje um curto beco à esquerda consoante se ascende pola rua actual, uma Rua de Moreira, referidos num documento de 1395 (Livro do Almoxarifado).


Local de acesso à R. do Corpo de Deus, na Judiaria Velha de Coimbra



Interior da R. do Corpo de Deus.


Segundo J. Pinto Loureiro, na sua obra Toponímia Coimbrã, a hoje Rua Corpo de Deus "...tem sido ao longo dos séculos sucessivamente Judiaria, Rua do Príncipe, Rua do Corpo de Deus, Rua Pedro Cardoso. A rua Corpo de Deus foi também denominada de Rua de Corpus Christi.



R. do Corpo de Deus, na Judiaria Velha de Coimbra.


Possivelmente as actividades económicas desenvolvidas pela comunidade judaica eram muito diversificadas. Enquanto algumas famílias se dedicavam a ofícios mecânicos (calçado ou marroquinaria), alguns Judeus mais abastados e influentes ocupar-se-iam das finanças (por ex. em arrolamento de moeda). Outras famílias dedicar-se-iam à agricultura nos férteis terrenos.



Arruamento da Judiaria Velha de Coimbra.


 

Localização da Judiaria Velha na planta de Coimbra, com reconstrução 
do traçado da muralha antiga.


Na actualidade a zona da Judiaria Velha está bastante descaracterizada devido à reforma de D. Fernando I, em 1370, que decidiu destruir o casario, após ter visto a judiaria e muralhas arrasadas nas guerras com Castela e demarcado um novo local para a judiaria.


Isto forçou os judeus a deslocarem-se para a chamada Judiaria Nova, mais afastada do centro, que ficou assim conhecida como a "judiaria do arrabalde"; estava situada perto do Rio Mondego. Apesar desta demarcação, a Judiaria Velha não foi totalmente abandonada. O Livro do Almoxarifado mostra que em 1395 aí havia casas "derrubadas", ou que estavam em "rossio", ou que jaziam "em chão", mas havia ainda casas habitadas por Judeus.



Arruamentos da Judiaria Nova de Coimbra.


Esta Judiaria Nova de Coimbra, é conhecida nos documentos da época como "judiaria do Sansão" ou "judiaria acerca de Sansão", por estar situada no local da actual Praça 8 de Maio (antigo Sansão). Embora não sejam conhecidos os limites exactos da Judiaria Nova de Coimbra, talvez tenha sido demarcada pelas ruas que hoje se chamam Rua Nova (desde o ano 1504), Rua Direita e Rua do Arco do Ivo, bem como pelo Terreiro e Travessa do Marmeleiro.


Calcula-se que na Judiaria Nova também tenha funcionado uma sinagoga (foram encontradas partículas de sal, usadas na purificação dos espaços), junto dum arco de pedra denominado Porta Mourisca, referida nos documentos do séc. XV como "Porta Mourisca para a Judiaria", talvez na confluência das actuais ruas Direita e de João Cabreira.



Local de confluência da R. Direita com a R. João Cabreira.


A construção da Judiaria Nova produziu-se para o lado da actual Rua da Sofia, com umas casas voltadas para a Rua Nova e outras para o Adro de Ivo, formando um largo ou pátio na zona interior, sendo possível que este pátio tivesse acesso por uma travessa que partiria da Rua Nova ou do Ardo do Ivo (ou por duas travessas partindo das duas ruas).



Ao fundo, R. Direita, vista da Pr. de Sansão (Pr. 8 de Maio).


Outro dos elementos que faz com que os limites da Judiaria Nova sejam difíceis de definir, é que a zona foi, em parte, destruída para abrir a Rua da Sofia.

Nos séculos XIV-XV o convívio entre Judeus e cristãos deteriora-se e os Hebreus passam a ser perseguidos. A ocorrência mais grave teve lugar em 1395, sob a liderança dum hierarca da igreja e vários sacerdotes.

Com o édito de expulsão dos Judeus de 1496, as autoridades político-religiosas permitiram a destruição do cemitério judeu de Coimbra e a venda das suas campas e lápides funerárias, apagando, desta forma, a que poderia ser a melhor fonte para resgatar a memória da Coimbra Judaica.

A partir do séc. XVI e ao longo de dos séculos, os Judeus seriam os alvos privilegiados da Inquisição. De facto, em Coimbra sediou um tribunal inquisitorial, um dos quatro que operavam em território português, além de Lisboa, Évora e Goa.

O Tribunal de Coimbra, que julgou muitos conversos distinguidos, processou mais de 11.000 casos entre 1541 e 1820. No total, por volta de duas centenas de pessoas teriam sido queimadas em praça pública, acusadas de crimes contra a igreja, por bruxaria e ausência de bons costumes e principalmente por judaísmo. Para além do “fogo” as sentenças incluíam ainda: a exposição em pelourinho, a forca, o esquartejamento, o garrote, o empalamento, os tratos de polé, as atormentações na roda. Por vezes praticava-se o corte de membros e da cabeça, com exposição no local do suplício até consumação, e também o sacrifício em estátua, por indesejada ausência do condenado. Outros ainda foram condenados ao cárcere perpétuo.


Assim sendo, no tecto da denominada sala das tormentas no Pátio da Inquisição de Coimbra subsiste ainda uma argola que servia para içar os prisioneiros, em sessões de tortura. Este edifício de funesta relembrança, acha-se na Alta e antes de passar para a Inquisição tinha servido como Colégio das Artes. À entrada do pátio, à direita, situavam-se os aposentos dos secretários, no topo ficavam os aposentos dos inquisidores, com um terraço avarandado com vistas, tendo por baixo a casa do tormento onde ficavam os cárceres.




Outro local da intolerância religiosa era a Praça do Comércio, onde decorriam os autos de fé. Na Rua de Sofia acima referida ainda é visível o local por onde passavam os prisioneiros da Inquisição, que eram executados à beira do rio.


Os processos da Inquisição duravam meses ou mesmo anos, durante o qual o acusado ficava detido na prisão. Considerando alegadamente que as acusações eram motivadas principalmente pelo desejo de confiscar e de apossar da propriedade do acusado, é de salientar que as profissões e ofícios mais frequentes dos processados foram, em ordem decrescente, sapateiros, comerciantes, fazendeiros, curtidores e tecelões. Relativamente à sua origem, os acusados procediam em grande número de Bragança, Braga, Porto, Viseu, Aveiro, Guarda e Coimbra.

A partir dos sermões pregados nos autos de fé, sabe-se que mães e avós foram responsabilizadas por manter práticas e crenças judaicas entre os conversos. Assim, durante o primeiro século da sua existência, a Inquisição de Coimbra julgou mais mulheres do que homens. Foi em 1781 que se realizaram os últimos autos de fé em Portugal: um em Coimbra, com 17 pessoas sentenciadas, e outro em Évora, com 8 sentenciados. 

Apesar desta repressão, Coimbra foi um centro considerável da comunidade judaica (marrana) nas décadas de 1530 e 1540. No século XVII António Homem, professor de Direito Canónico na Universidade de Coimbra, levou um conciliábulo de ilustres judaizantes marranos. Muitos marranos, para além de Homem frequentaram a Universidade de Coimbra, entre os quais, o distinguido dramaturgo e mártir, António José da Silva. Outros, como António Fernando Mendes, mais tarde convertido ao judaísmo em Inglaterra, fizeram parte do seu corpo docente.


Muitos dos cristãos-novos presos como judaizantes em Ferrara em 1581 eram refugiados da região de Coimbra. Três deles, incluindo Joseph Saralvo, que se gabava de devolver 800 marranos ao judaísmo, foram condenados à morte em Roma dois anos depois. 


Entre Novembro de 2008 e Abril de 2009 a divisão de museologia da autarquia promoveu um percurso cultural e uma exposição, sob o nome de "Coimbra Judaica", a fim de resgatar o património da presença judaica nesta cidade.

Este artigo foi elaborado por Manuela Videira, 
com texto adaptado de:

GoogleEarth

Outras fontes:

SARAIVA, José Hermano, História concisa de Portugal, Publicações Europa-América.

Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Volume II, Publicações Alfa.

Biblioteca de Ourém



27 de Janeiro é o  Dia Internacional em Memória 
das Vítimas do Holocausto.



Neste contexto, a ONU estimula os estados-membros a desenvolver programas educacionais para que a tragédia não seja esquecida pelas gerações futuras com o objectivo de evitar que actos de genocídio como este voltem a acontecer.

Durante todo o mês de janeiro, a Biblioteca Municipal de Ourém destaca obras sobre o tema que integram o acervo deste equipamento cultural.

De segunda a sexta-feira das 09.00H às 19.00H e sábado das 09.30H às 13.00H


Artigo enviado por Carlos Baptista


Obrigada Carlos J



Entrada Livre
 
Fonte:
http://www.cm-ourem.pt

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Itinerário da Terra Santa!



Uma Obra de Frei Pantaleão de Aveiro


Frontispício da primeira edição do Itinerário da Terra Sancta, 1593


   Itinerario da Terra Sancta, e suas particularidades conheceu a sua primeira edição em 1593. Do seu autor, Frei Pantaleão de Aveiro, sabe-se que estava no convento franciscano de Xabregas aquando da publicação do seu livro, e que, conforme se lê no frontispício da 2ª edição de 1596, era «frade menor da Ordem de São Francisco, da Observância da Província dos Algarves». Dele não se sabe o nome secular, nem quem eram seus pais, quando nasceu ou morreu, nem onde. Apenas se lhe conhece o nome religioso, porventura um indicador de que Frei Pantaleão fosse natural de Aveiro.

    Em Itinerário da Terra Santa Pantaleão de Aveiro descreve as suas viagens pela Europa mediterrânica, por terras do Império Otomano, até à Palestina, que como bem sabemos também se encontrava sob domínio otomano. A narrativa, na primeira pessoa, é minuciosa e de grande sensibilidade.



Jerusalém vista do Monte das Oliveiras, David Roberts (1796-1864)


«É cousa maravilhosa e muito de notar que, se daquele outeiro olhais Jerusalém, sentis em vossa alma uma compassiva tristeza e um não sei quê de melancolia que vos aflige o coração…»



Procissão de um auto-de-fé saindo do Palácio dos Estaus no Rossio de Lisboa


    Num tempo de intolerância e de fanatismo religioso marcado pela Inquisição, pela desunião dos cristãos nas disputas violentíssimas da Reforma e da Contra-Reforma, da expulsão dos judeus dos reinos de Espanha e de Portugal, pode dizer-se que ele era um homem tolerante: «Advirto aqui aos que lerem este meu Itinerário que muitas vezes de necessidade hei-de falar de judeus, que destas partes ocidentais achei nas orientais, e afirmo como cristão não ser minha intenção caluniar pessoa alguma nem a gente de nação…». 

    Do muito que nos conta Frei Pantaleão de Aveiro no seu Itinerário, escolhemos alguns episódios que ilustram costumes diversos, uns picarescos, outros de uma grande crueldade. Por exemplo:


“Dar crianças ao Turco”



Janízaro, desenho de Cesare Vecellio (c. 1521-1601)


    Relata-nos o bom frade franciscano que, de todas as províncias do Império Otomano e em especial as do Epiro, da Macedónia e da Albânia, as famílias cristãs eram obrigadas a oferecer crianças do sexo masculino de tributo ao grão-turco. Os meninos eram então educados na Lei Islâmica e na língua turca e instruídos na arte militar, com o fim de criar um corpo de guerreiros de eleição. Fidelíssimos ao Sultão, faziam a guerra e eram também usados no governo da sua corte e de todos os seus reinos e províncias. Eram os janízaros. Todavia, mesmo os que ascendiam a cargos de alta dignidade continuavam escravos do grão-turco, correndo o risco de serem destituídos a qualquer momento ou até condenados à morte. 

     E a propósito de janízaros, propomos agora a audição de uma marcha militar da Música Tradicional Otomana - “Marcha dos Guerreiros”





O Bispo Abegaro Orator


S. Gregório pregando ao rei Tiridates, 1678, Arménia


     Foi em Nicósia que Frei Pantaleão conheceu o bispo Abegaro Orator, patriarca dos Arménios, que se dirigia ao Concílio de Trento em representação das Igrejas Cristãs Orientais.

…..Abegaro viajava em companhia de dois filhos. Não sendo novidade para Frei Pantaleão o caso dos clérigos das nações cristãs do Oriente – abissínios, gregos, gregorianos, arménios, coptas ou sírios - serem casados, o que o espantou deveras foi o facto de ter visto o pai a dizer a missa, um filho a ler o Evangelho e o outro a Epístola.


 Em Damasco


Anónimo veneziano, A Recepção dos Embaixadores em Damasco, 1551


    Sobre Damasco, Frei Pantaleão diz tratar-se de uma cidade nobre e populosa, as pessoas bem-educadas e gentis para com os estrangeiros. Para os forasteiros, fossem cristãos, mouros ou gentios, havia hospedarias onde eram recebidos gratuitamente durante três dias, com comida em abundância. O grão-turco também subsidiava hospitais, onde eram tratados todos os doentes necessitados, e com a renda que sobejava se amparavam os indigentes. Na verdade, o grão-turco sustentava hospitais por todas as terras do seu império, para homens e mulheres, mas também para gatos. 


O gateiro


Gateiro albanês de Istambul


     Em muitas cidades do império havia hospitais para gatos. Cuidava deles um gateiro, que pedia esmola à porta do açougue para alimentar os seus bichanos.


 «Justiça que manda fazer o grão-senhor!»



Sergei Alexkseevich Kirillov, A Execução de Razin, 1986


     Mas se é verdade que o grão-turco praticava a caridade, não é menos verdade que era implacável nos castigos, em nada ficando atrás dos seus congéneres da cristandade ocidental com os seus autos-de-fé. Ainda em Damasco, Frei Pantaleão descreve dois episódios de arrepiar. Conta ele, que de repente a calma é interrompida por um tropel de cavaleiros da justiça que irrompem pela praça, dispersando a multidão. Escoltam vinte e cinco prisioneiros acusados de assaltar viajantes. Ali mesmo são degolados sem hesitações. Prossegue a narrativa, contando de um outro cavaleiro que entra na praça, puxando um infeliz de punhos atados por uma corda que se ia prender à sela do cavalo. Logo surgem algozes que flagelam o desgraçado até ele ficar em carne viva. De seguida crucificam-no, cravando-lhe grossos pregos nas mãos e nos pés, abrem-lhe as espáduas com golpes de enxada, e nas cavidades enfiam-lhe novelos de alcatrão misturado com enxofre. Pegam-lhe fogo, colocam-no em cima de um camelo, com um engenho já preparado, e assim o levam pelas ruas da cidade, flagelado, crucificado e ardendo.



Dançarina com véu azul, Fabio Fabbi (1861-1906)


     Porque a música é como um bálsamo para a alma, capaz de nos dar uma sensação de alegria, parece-nos oportuno, depois das cenas dramáticas atrás relatadas, ouvir *“A Dança do Soma” – Música Tradicional Árabe -, por Usama Abu, em duduk (instrumento de sopro) e Erez Shmuel Monk, na percussão.





Em Safed


Reuven Rubin, Safed na Galileia, 1927


     A nossa última paragem nestas andanças pelo Itinerário de Frei Pantaleão vai ser em Safed, na Galileia, uma das quatro cidades sagradas de Israel.

 Após a expulsão dos judeus dos reinos de Espanha e de Portugal, em finais do século XV, Safed recebeu um grande número de refugiados, entre eles, muitos rabinos e intelectuais. A cidade tornou-se assim um centro de estudos místicos, onde viviam e ensinavam grandes sábios sefarditas, profundos conhecedores do Talmude e da Kabbalah.



Vista de Safed, Yitzhak Frenkel (1899-1981)


     Vejamos agora o que nos conta Frei Pantaleão sobre Safed: «(…) Em amanhecendo vieram dois Judeus Portugueses visitar a Turca por parte dos Judeus, que moravam em Safed, uma povoação grande, que estava dali a pouco mais de légua, a qual em o Livro de Tobias se chama Sapheth: (…) Disseram-nos, que em Safed moravam mais de quatrocentos judeus, a maior parte deles nascidos em Portugal, rogando-me muito que quisesse lá dar uma chegada, porque era muito perto, e não me havia de pesar. Dei-lhe os agradecimentos da sua boa vontade, prometendo-lhes de ir, se o tempo me desse lugar.



Yosl Bergner, Judeus na Sinagoga Abuhav, 1951


(…) Chegamos a Safed, aonde os Judeus nos fizeram uma grande festa, e me levaram à sua Sinagoga, que tinham mui bem concertada, e depois nos recreamos comprando a bom preço o vinho, que me pareceu necessário, nos partimos a Nazareth, que está dali a menos de uma légua. (…) Muito ante manhã nos partimos de Safed, e nos tornámos aos nossos, que à ponte de Jacob nos estavam esperando (…)»

   Despedimo-nos com “Lecha Dodi”, uma oração escrita por Shlomo HaLevi Alkabetz, um cabalista de Safed, de meados do século XVI. “Lecha Dodi” é a oração mais famosa, mais bela, que recitamos com júbilo e fervor, quando recebemos o Shabbat. 




Notas
     Neste breve artigo sobre o Itinerário, foram apresentados apenas alguns excertos da obra. Embora breves, espera-se que sejam expressivos da personalidade tolerante e corajosa de Frei Pantaleão de Aveiro, um homem capaz de interagir com a diferença, sem ver nela uma adversidade.

     Da obra completa, sabemos por Fernando Campos (autor do romance histórico sobre Frei Pantaleão de Aveiro, “A Casa do Pó”), que a investigou miudamente, ser muito rica em pormenores, envoltos num emaranhado de citações bíblicas, alusões detalhadas a cerimónias litúrgicas, etc., como convinha a fim de enfrentar a Mesa Censória.



Este artigo foi elaborado e enviado por
Sónia Craveiro 

Muito obrigada pela excelente participação J


*Dança do ventre

Bibliografia:

http://purl.pt/23024 (2ª edição de Itinerário da Terra Santa, BNP);
CAMPOS, Fernando, “A Casa do Pó”, DIFEL, 1986;


Música:

Traditional Ottoman - Warrior's March
La Capella Real de Catalunya - Grupe Sufi Al-Darwish - Hespèrion XXI - Jordi Savall, dir.
Traditional Arabic - The Dance of the Soma
Usama Abu, duduk, and Erez Shmuel Monk, percussions.
Lekha Dodi

O 1º Shabat deste espaço!!!



Shabat Shalom!


São os votos sinceros do Espaço Isaac Abravanel!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cristãos-Novos Portugueses em Ferrara.



Breve Incursão na Oficina de

Abraão Uske 



Ferrara, Hondius Joducus Jr., 1626


    Itália foi porto de abrigo para muitos cristãos-novos portugueses, cuja experiência no comércio transoceânico se revelou da maior importância numa terra que detinha o principal mercado de exportação do comércio dos judeus otomanos. No entanto, o regresso ao Judaísmo era proibido, já que segundo a óptica cristã a conversão dos judeus baptizados era vista como um crime de apostasia, passível da pena capital.


     A presença judaica em Ferrara, uma cidade situada no norte de Itália e banhada pelo rio Po di Volano (um braço do rio Pó), está documentada a partir de 1275. Os judeus conheciam uma situação estável e próspera, que se foi consolidando ao longo dos séculos XIV e XV sob a protecção da Casa d’Este. Foi justamente sob a protecção de Ercole I d’Este (1431-1505) que um grupo de refugiados judeus de Espanha se estabeleceu no seu território, dando assim origem à comunidade sefardita de Ferrara. Durante a primeira metade do século XVI, marranos portugueses vieram juntar-se aos refugiados espanhóis, em especial depois da instituição da Inquisição em Portugal. Foto: Brasão da família Abravanel




     A comunidade sefardita de Ferrara reunia-se à volta do banqueiro Isaac Abravanel, neto do comentador nascido em Lisboa, do mesmo nome.


Ercole II d’Este, retratado por Nicolo dell ‘Abate

O duque de Ferrara Ercole II d’Este (1508-1559) foi o mais poderoso protector dos judeus daquela época. A partir de 1538 fez publicar legislação com vista a acolher na sua cidade todas as pessoas hispanófonas e lusófonas, concedendo-lhes liberdades «de vir, como cristãos, ou como judeus». Ferrara, foi ainda a única cidade da Cristandade a amnistiar a apostasia dos baptizados à força. Todavia, durante o ducado de Alfonso II, uma decisão papal de 1581 consignada na bula Antiqua Judaeo-rum improbitas desencadeou uma onda de repressão contra as comunidades judaicas de Itália, levando a Inquisição romana a perseguir os cristãos apóstatas. Em Ferrara foram presos vários marranos, acusados de praticarem a circuncisão (Brit Milá); cinco destes foram extraditados para Roma e por fim, o praticante de circuncisões clandestinas José Saralvo foi condenado à fogueira, em 1583.
Alfonso II d’Este, retratado por Cesare Aretusi


     Apesar deste episódio dramático, Alfonso II teve a habilidade política de renovar os privilégios aos sefarditas, autorizando-os a acolher os refugiados da Península Ibérica, conquanto não praticassem a circuncisão nos adultos. Em 1597, Alfonso II morre não deixando herdeiros varões e em 1598 o ducado de Ferrara é devolvido à Igreja. Os judeus viram as suas liberdades seriamente limitadas e muitos abandonaram a cidade, especialmente portugueses.



Planta de Ferrara, finais séc. XV


    O acolhimento que a cidade de Ferrara deu aos portugueses fugidos de uma pátria intolerante, ainda que efémero, deixou uma marca duradoura na história judaica, em particular devida às criações literárias e artísticas que aí se desenvolveram. Os judeus portugueses cultivavam uma literatura refinada em língua espanhola ou portuguesa clássica, procurando uma elegância e um esteticismo que os distinguia dos demais.


Selo da oficina de Abraão Usque


      De realçar, que as perseguições a que os cristãos-novos portugueses estiveram sujeitos, não constituíram motivo para que renegassem o país que os viu nascer, como se pode observar no selo da oficina do editor português Abraão Usque – a esfera armilar do rei D. Manuel de Portugal.

Bíblia de Ferrara, 1553





    Abraão Usque, nome hebraico adoptado por Duarte Pinel, um latinista de Lisboa, fundou uma oficina de imprensa nas línguas hebraica, espanhola e portuguesa, que esteve activa entre 1553 e 1557, graças ao apoio da riquíssima Grácia Mendes, a Senhora. O principal feito desta oficina foi a edição da Bíblia e do ritual sefardita, em tradução judeo-castelhana, dita “Bíblia de Ferrara”. Esta Bíblia, fielmente reproduzida em numerosas edições, teve uma relação estreita com os cristãos-novos regressados ao Judaísmo, influenciando a primeira tradução espanhola efectuada por um cristão, o luterano Casiodoro de Reina, em 1569.

Consolaçam às Tribulaçoens de Israel, 1553


    Consolação às Tribulações de Israel é uma obra-prima da literatura portuguesa, do historiador Samuel Usque (cujo nome de baptismo usado em Portugal continua a ser desconhecido), impressa na oficina de Abraão Usque, em 1553. A obra, fazendo uso do diálogo pastoril, muito popular na época, exprime a consciência atormentada dos cristãos-novos - «esta nossa nação seguida & afugentada agora dos reinos de Portugal». O protagonista, o pastor Icabo (Jacob), que representa «toda a nação de Israel», narra as tribulações do povo judeu desde os tempos bíblicos até às perseguições inquisitoriais contemporâneas, a dois amigos pastores «Zicareo» e «Numeo», alegorias da Memória e da Consolação, que são igualmente os profetas da Bíblia, Zacarias e Naum.

 Samuel Usque procura, através da alegoria literária, exortar os seus correligionários, os “Senhores do Desterro de Portugal”, a regressar ao Judaísmo, argumentando que o tempo do Messias é chegado – consolação final do livro.



História de Menina e Moça, Bernardim Ribeiro, Ferrara, 1554


Uma das figuras mais enigmáticas do Renascimento Português é, sem dúvida, Bernardim Ribeiro. Dele sabe-se que colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, deduzindo-se, portanto, que pertenceu à roda dos poetas palacianos, como Sá de Miranda ou Gil Vicente. A sua obra mais emblemática é o romance Saudades, mais conhecido como Menina e Moça, um clássico da nossa literatura. O romance foi editado em 1554, na oficina de Ferrara de Abraão Usque, sob o título História de Menina e Moça.


Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada*, era ainda pequena, não a soube.


      *Partida forçada
   A «Menina» recorda a infância e todas as mudanças funestas que marcaram tragicamente a sua vida. Segundo o investigador literário Hélder Macedo, ao evocar o afastamento de casa, o autor introduz logo no início o tema do desterro ou exílio, tema-chave da obra, porque está na base dos sentimentos que caracterizam as personagens e as identificam entre si: a tristeza, a saudade. Ignora-se, porém, de que exílio se trata: amoroso (afastamento da pessoa amada), político (referência às perseguições aos judeus portugueses), ou místico (alusão à Cabala).
     Juntamente com as obras de Bernardim Ribeiro são editadas obras de Cristóvão Falcão e vários outros. 
Foto: Lisboa Ribeirinha na primeira metade do séc. XVI. Detalhe de uma iluminura de Simão Bening (1483-1561) in Genealogia dos Reis de Portugal de António de Holanda, Museu Britânico, Londres.





Nota: o detalhe é a barra inferior da iluminura que consta do artigo


     Jorge de Montemor, também conhecido como Jorge de Montemayor, é um poeta/músico que adoptou como nome, o da sua terra natal, Montemor-o-Velho, na região de Coimbra. O seu romance Diana, editado em Ferrara, é escrito em castelhano, língua da sua eleição. É também em castelhano que escreve a canção Flerida en cuja mano, que faz parte do Cancioneiro Musical de Belém. É com ela que terminamos este artigo. A interpretação é do grupo Segréis de Lisboa, sob a direcção de Manuel Morais.


Flerida en cuja mano/esta mi triste vida/no triste mas dischosa estando nella
Pues no te sirves della/bien es que io la nege/que aun que estoi olvidado
Amor de mi cuidado/y el coraçon cansado no soçiega/seras en toda cosa


Flerida a min sabrosa


Este artigo foi elaborado e enviado por
Sónia Craveiro

 
Muito obrigada pela excelente partilha. J


Fontes:

WILKE, Carsten L., HISTÓRIA DOS JUDEUS PORTUGUESES, Edições 70;
DICIONÁRIO DO JUDAÍSMO PORTUGUÊS, EDITORIAL PRESENÇA;
FERREIRA, Maria Ema Tarracha, ANTOLOGIA LITERÁRIA COMENTADA – Época Clássica, século XVI – I parte – Gil Vicente & Bernardim Ribeiro, EDITORA ULISSEIA;
LOPES, Óscar, SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa;
MORAIS, Manuel, CANCIONEIRO MUSICAL DE BELÉM, IMPRENSA NACIONAL – CASA DA MOEDA.
http://www.youtube.com/watch?v=boL5VrnQbNc