quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A presença dos Judeus em Carção



"A Capital do Marranismo"


Carção - Rio Sabor


Carção é uma freguesia portuguesa do concelho de Vimioso, no distrito de Bragança, região Norte de Portugal e sub-região do Alto Trás-os-Montes com 27,60 km² de área e 419 habitantes (2011), densidade: 15,2 hab/km². Situa-se no nó de convergência entre as aldeias de Argozelo e Santulhão, e é passagem obrigatória para quem se dirige à sede de concelho, da qual dista dez quilómetros. Tem por limites as freguesias de Argozelo, Pinelo, Vimioso, Santulhão e terras do concelho de Bragança. 

Não tem anexas, mas outrora compreendia cinco casais no rio Maçãs e onze moradores na Quinta da Veiga. Pertenceu ao antigo concelho de Outeiro, extinto em 1855, tendo passado a integrar o concelho de Vimioso.1



Neste local, em 1651, foi justiçado Francisco Mendes, natural do lugar de Carção. Foi condenado à morte e enforcado na Vila de Outeiro, por ter assassinado Gaspar Gonçalves, juiz de Carção. O seu crime foi acrescido por ter despedaçado «com hua fouce roçadoura hua imagem de Christo». No meio do povo de Carção, numa grande lápide de granito cravada no solo, junto a uma fonte, está uma inscrição referente a Francisco Mendes. 





Naquele sítio estavam as casas de habitação do assassino, as quais foram mandadas arrasar e salgar pela barbaridade do crime. Os seus bens foram confiscados para a Coroa, ficaram também os seus descendentes incapazes de obter qualquer ocupação até à quarta geração.



Ponte Romana sobre o Rio Maças


Os habitantes de Carção estão ligados ao comércio desde tempos muito antigos. Um grande número dos seus habitantes é descendente de judeus que se refugiaram no século XV nas aldeias raianas. A importância do legado judaico revela-se no símbolo da junta de freguesia de Carção que tem no brasão uma mezuzá e uma menorá, o candelabro de sete braços, um dos mais antigos símbolos judaicos.




Brasão da Freguesia de Carção


A partir do século XV e XVI iniciou-se o seu maior povoamento. Este facto ficou a dever-se à expulsão dos judeus de Espanha pelos Reis Católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão (Decreto de Alhambra de 1492). Assim, entraram em Portugal milhares de pessoas e, pelo lado de Miranda do Douro, calcula-se que tenham entrado cerca de 3000 pessoas. Inicialmente fixaram-se num local chamado Prado das Cabanas, quatro quilómetros a leste de Vimioso, dispersando-se depois, pouco a pouco. Uma vez que Carção estava bem situada e tinha feira todos os meses, aqui chegaram muitas pessoas de origem judaica, trazendo com elas uma nova cultura e uma nova economia.



Praça antiga de Carção


As tabernas e os talhos eram alguns dos negócios que pertenciam à comunidade judaica. As famílias de negociantes de Carção instalaram-se na zona da praça e os seus estabelecimentos não eram frequentados por lavradores.



Praça nos anos 60




A praça de Carção guarda memórias dos tempos de perseguição por parte da Inquisição, que condenou à fogueira cerca de 18 pessoas da aldeia. Consequentemente, para safar da morte, muitos Judeus converteram-se por fora, para mostrar que já eram cristãos, quando na realidade ainda viviam o verdadeiro espírito judaico. 



Este fenómeno é designado de “Marranismo”. Tudo leva a crer que os judeus usavam as alheiras, produto alimentar da zona, para mostrar que já eram cristãos, logo comiam carne de porco, quando, na realidade, eram feitas, apenas, de pão e aves.



Pedra com símbolos judaicos


Implantada mesmo no centro de Carção, hoje a “Taberna TAI” é um símbolo vivo dos tempos em que os Judeus dominavam o negócio na praça. O edifício centenário, que passou de geração em geração, foi recuperado segundo a traça original e, agora, acolhe pessoas de todos os estratos sociais. Aqui ouvem-se histórias dos tempos em que o cristianismo e o judaísmo dividiam a população e, em tom de brincadeira, até se fazem comentários sobre as pessoas que ainda têm ar de judeus.


Os tempos passaram, as mentalidades mudaram e as práticas judaicas que ainda poderão existir fazem, apenas, parte da intimidade de cada um. A proprietária da taberna, Laura Tomé, de 57 anos, afirma que não tem grandes memórias dos tempos áureos do judaísmo, mas sabe que a “Taberna TAI” foi uma das primeiras a surgir em Carção. “Este negócio já vinha do meu sogro, que pertenceu a uma família que tinha taberna e talho”, recorda ela.


“A aldeia estava dividida. Os judeus tinham os seus negócios na zona da praça, ao passo que os lavradores viviam no cimo do povo e só frequentavam os comércios e cafés da sua zona. Quando os lavradores desciam, o que, por norma, acontecia ao fim-de-semana, havia pancadaria”, recorda o presidente da Junta de Freguesia de Carção, Marcolino Fernandes. Com 76 anos, o autarca afirma que ainda viveu no tempo em que as rivalidades entre cristãos e judeus estavam bem vincadas. “Embora eu fosse lavrador, vivi sempre no meio dos Judeus. O meu pai esteve três anos em França e quando regressou comprou uma casa mesmo no centro da praça, o que para os judeus foi uma afronta. Por isso, desde pequeno que fui assistindo às rivalidades”, frisa o carçonense.



O estado em que estava o edifício que é hoje o  Museu Judaico


 Para reivindicar as tradições e vestígios dos judeus, está em fase de conclusão um Museu dedicado às tradições judaicas. Promovido pela Associação Almocreve, este espaço vai ter dois pisos: um para exposições temporárias e outro dedicado ao judaísmo. O museu fica mesmo no centro da praça de Carção, onde ainda se encontram outros vestígios judaicos.



Faça aqui uma visita virtual ao Museu:



Fontes:

(1 - Paróquia de Carção. Arquivo Distrital de Bragança. Página visitada em 10 de Outubro de 2013).

Consultar este blogue para informação mais detalhada:


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fernão Mendes Pinto



PEREGRINAÇÃO


Frontispício da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, 1614


Falar de Fernão Mendes Pinto é falar da Peregrinação, de tal forma homem e obra estão ligados. Pouco se sabe da sua vida, para além de que nasceu e morreu em Portugal, passou vinte e um anos na Ásia e escreveu um livro – Peregrinação -, publicado em 1614 (trinta e um anos após a morte do autor). 



Descobrimentos Marítimos Portugueses - Planisfério Cantino, 1502


    A vida de Fernão Mendes Pinto abrange quase todo o século XVI, uma época que foi palco tanto da gloriosa ascensão, como da decadência da nação portuguesa. Por altura do seu nascimento (1509?-1511?), o Império Português estava espalhado ao longo de uma linha que ia da costa do Brasil às da África Ocidental e Oriental, à Pérsia, à costa do Malabar na Índia, ao Ceilão e aos arquipélagos da Malaia e das Molucas. Quando Fernão Mendes Pinto morreu, em 1583, Portugal tinha perdido a sua independência, absorvido pelo império de Filipe II, rei de Espanha (Filipe I de Portugal). 

    Pensamos ser apropriado introduzir aqui duas peças musicais que ilustram, a primeira, o apogeu do Império Português no reinado de D. João III, e a segunda, a derrota do exército português em Alcácer-Quibir, comandado por D. Sebastião, que conduziria à perda da nossa independência: “Pardeos bem andou Castella” e “Puestos estan frente a frente”. 



Carlos V e Isabel de Portugal, retratados por Tiziano


“Pardeos bem andou Castella” é referida como uma “Portuguesa folia” na peça de Gil Vicente “Templo d’Apolo”, estreada na partida de D. Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, para Castela, quando casou com o Imperador Carlos V, em 1526.

Pardeos bem andou Castela/pois tem rainha tam bela
(…)
Pardeos bem andou Castela/com toda sua Espanha
pois tem rainha tam bela/emperatriz d’Alemanha



Segréis de Lisboa – Música para o teatro de Gil Vicente – Pardeos bem andou Castella



D. Sebastião, retratado por Cristóvão de Morais, c. 1572-74


     “Puestos estan frente a frente” (romance) faz parte da obra “Miscelânea”, de Miguel Leitão d'Andrade, publicada em 1629; narra a Batalha de Alcácer-Quibir, ocorrida em 1578, na qual o rei português D. Sebastião perdeu a vida. 

Puestos estan frente a frente/Los dos valerosos campos
Uno es del Rey Maluco/otro de Sebastiano el Lusitano
(…)
Busca la muerte en dar muertes/Sebastiano el Lusitano
Diziendo ahora es la hora/Que “Un ben morir, tutta la vitta honora”



Gérard Lesne - O Lusitano: Puestos estan frente a frente




     Fernão Mendes Pinto informa-nos logo no início da longa narrativa da sua peregrinação de que «(…) até à idade dos dez ou doze anos vivi na miséria e na estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho (…)». Deduzimos que nasceu algures entre 1509 e 1511, conforme palavras do próprio ao afirmar que tinha dez ou doze anos quando morreu o rei D. Manuel I, no dia de Santa Luzia, a 13 de Dezembro de 1521.

     A família de Fernão Mendes Pinto, embora pobre, será remotamente aparentada com os poderosos Mendes (Francisco e Diogo Mendes) de Lisboa e Antuérpia, cristãos-novos a quem a coroa portuguesa concedera o monopólio do comércio das especiarias, nos começos do século XVI. Talvez isto explique o tio que o levou para Lisboa e o colocou ao serviço de uma senhora da nobreza. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal ao serviço da casa do fidalgo Francisco de Faria e a partir de 1527 é moço de câmara na Casa de D. Jorge de Lencastre, Mestre da Ordem de Santiago e filho natural de D. João II. 




   É em 1537 que embarca para a Índia, tentando a sua sorte em terras do Ultramar. A partir daí, pelo espaço de vinte e um anos, Fernão Mendes Pinto vive aventuras que virá a descrever ao longo dos 226 capítulos da sua Peregrinação. Relata massacres terríveis, tendo muito provavelmente participado em alguns deles; diz-nos que foi escravo, soldado, negociante, embaixador, missionário, corsário… «fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desaventurados sucessos que atrás no decurso desta minha tão longa peregrinação largamente deixo contados» (Cap. 226).











Portugueses no Japão, Biombo Namban, séc. XVI/XVII


    Nas suas andanças pela Ásia, viveu em Malaca, em Pegu (Birmânia) e no Sião. Depois, andou pelos mares da China em viagens de negócios e sabe-se que fez quatro ao Japão. Nesta fase da sua vida, que está relativamente bem documentada, há informação de que juntou uma fortuna considerável; é como negociante abastado que conhece S. Francisco Xavier na sua terceira viagem ao Japão, em 1551, tendo emprestado dinheiro àquele missionário para a construção da primeira igreja cristã em terras nipónicas.

     Em 1554 decide regressar à pátria, mas enquanto permaneceu em Goa foi tomado de um fervor místico que o levou a doar grande parte dos seus bens à Companhia de Jesus, que o acolheu como noviço. Foi nestas circunstâncias que integrou uma missão evangelizadora ao Japão (totalmente custeada por si), que no entanto resultou em fracasso. 












Rua Direita em Goa, 1596, Jan Huygen van Linshoten


     Entre esta última viagem ao Japão e o regresso a Goa, em 1557, Fernão Mendes Pinto decide afastar-se da Companhia de Jesus, ao que tudo indica a seu próprio pedido e amigavelmente. Regressa a Portugal em 1558, era D Catarina rainha regente, e durante quatro anos e meio andou empatado na corte na expectativa de uma compensação pelos serviços prestados à Coroa. Vendo as suas pretensões frustradas, retira-se para uma pequena propriedade que possuía no Pragal, perto de Almada; casou, constituiu família, e entre 1569 e 1578 escreveu a sua Peregrinação. Morreu em 1583, apenas três meses depois de ter recebido um modesto estipêndio da Coroa, em reconhecimento dos serviços prestados a Deus e ao Rei. 




    Parece ser intencional, e não por acidente, que Fernão Mendes Pinto omite aspectos da sua vida na Peregrinação; sob a aparência de um romance de aventuras onde é difícil separar o real do imaginário, a obra revela-nos uma crítica à sociedade do seu tempo, uma denúncia às atrocidades cometidas, hipocrisias e falsa religiosidade, que Fernão Mendes Pinto testemunha, embora de forma indirecta, por razões tão evidentes como a Censura e a Inquisição.

     A ideologia da Cruzada foi a força unificadora mais importante da história de Portugal na época dos descobrimentos. Mas essa ideologia era marcada por uma intolerância a que o autor de Peregrinação foi profundamente sensível, como podemos constatar nos exemplos que se seguem: 

Palavras de um menino raptado a seus pais, e que os portugueses captores tentavam doutrinar:

— Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi louvar a Deus despois de fartos, com as mãos alevantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu sem satisfazer o que têm roubado; pois entendei que o Senhor da mão poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dous pecados tão graves quanto despois de mortos conhecereis no rigoroso castigo de Sua divina justiça. (Cap. 55)

     Palavras dos tártaros acerca do procedimento dos portugueses:

— Conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria dá claramente a entender que deve de haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.
     A que o velho, que se chamava Raja Bendão, respondeu:
— Assim parece que deve ser, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas por adquirirem o que Deus lhe não deu, ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes faz esquecer a sua pátria, ou a vaidade e a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha por ela negam a Deus e a seus pais. (Cap. 122)



Rua Direita em Goa, (detalhe) 1596, Jan Huygen van Linshoten


    Durante os vinte e um anos que viveu na Ásia, Fernão Mendes Pinto teve uma vida activa, recheada de aventuras e, porventura, alheada das restrições políticas e religiosas que estavam a ser gradualmente impostas na sua pátria.

     Por outro lado, o contacto estreito com as religiões asiáticas, tradicionalmente tolerantes, ter-lhe-á permitido amadurecer ideias e atitudes. Na sociedade multirracial da Índia portuguesa, é possível que tenha estabelecido contactos com o Judaísmo, através da antiga comunidade judaica que ali se radicara muito antes da chegada dos portugueses. 

     De uma forma ou de outra, Fernão Mendes Pinto chegou a uma filosofia que se fundamenta na moral dos Dez Mandamentos; crê no princípio do livre arbítrio, na assunção da responsabilidade pelos próprios actos; rejeita o mito do deus da tribo que aceita quebrar os seus próprios mandamentos e a prática de actos imorais contra membros de uma qualquer sociedade, independentemente da sua raça, credo ou cor.

     Podemos assim concluir que a Peregrinação é, antes de mais, um apelo à tolerância racial e religiosa. 



Arte indo-portuguesa, Goa, Nª Senhora da Palma, (detalhe) séc. XVII


    Terminamos este artigo com um exemplo musical que é fruto do cruzamento de duas culturas: a portuguesa e a indiana. Trata-se da canção mariana Senhora del mundo (que Gil Vicente incluiu no seu Auto da Feira, representado “ás matinas do Natal, na era do Senhor de 1527”), numa interpretação da saudosa Montserrat Figueras, acompanhada por saltério e instrumentos musicais indianos. 



“…a mágoa que eu tenho de ver o muito que por nossos pecados nesta parte perdemos e o muito que pudéramos ganhar…”
Fernão Mendes Pinto



Notas:
1 - O Planisfério Cantino é uma carta náutica que representa os descobrimentos marítimos portugueses. Deve o seu nome a Alberto Cantini, que a obteve clandestinamente em Lisboa, em 1502, para o seu empregador, Ercole I d’Este, duque de Ferrara.
2 - Carlos V e Isabel de Portugal são pais de Filipe II de Espanha (I de Portugal) e avós de D. Sebastião.



Este artigo foi elaborado e enviado por
Sónia Craveiro
 
Muito obrigada pela partilha J

Fontes:
CATZ, Rebecca, A sátira social de Fernão Mendes Pinto – análise crítica da Peregrinação, Prelo, Lisboa, 1978;
PINTO, Fernão Mendes, Peregrinação, Publicações Europa-América, 1983;
NERY, Rui Vieira, Música para o teatro de Gil Vicente, Portugaler.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Judiarias de Coimbra!


COIMBRA


Cidade portuguesa banhada pelo Rio Mondego, situada na região da Beira, 
com cerca de 143.400 habitantes.


No século VIII é ocupada pelos Mouros, tornando-se num importante entreposto comercial entre o norte cristão e o sul árabe/muçulmano. Em 971 torna-se Condado de Coimbra, mas apenas em 1064 a cidade é de vez reconquistada por Fernando Magno, rei de Leão e Castela.

Existe um documento do ano 950 em que o Conde Ximeno e sua mulher, Adosinda Guterres, doaram ao Mosteiro de Cela Nova prédios pertencentes a Judeus em Quires (Taveiro), nas redondezas de Coimbra. Em 1099, a aldeia de Enxofães, hoje freguesia de Murtede, no concelho de Cantanhede, é dita "villa que est de illos Hebreus" (aldeia que é dos Judeus).


Porém, a primeira atestação documental da presença judaica em Coimbra é a carta de demarcação da paróquia de S. João de Santa Cruz de 1139. Segundo este documento, o bairro judeu tinha cemitério próprio, o seu almocávar.

Nessa altura Coimbra apresentava uma estrutura urbana. A Universidade, que D. Diniz fundara em Lisboa, com a designação de Estudo Geral, no final do século XIII, esteve alternadamente entre Lisboa e Coimbra, até à sua fixação definitiva nesta última cidade por ordem de D. João III, em 1537.

Em Coimbra existiram duas judiarias: a velha e a nova. A Judiaria Velha estava situada fora das muralhas, entre a Porta de Almeida e Porta Nova, na encosta que hoje tem, como arruamento principal, a Rua Corpo de Deus. A Judiaria Nova situar-se-ia na zona entre Sansão, a norte da actual Rua Direita, e o Arnado.



Judiarias de Coimbra.


Na Judiaria Velha de Coimbra existiu uma sinagoga, que para alguns teria funcionado no local ou perto do local em que em 1360 se ergueu a Capela da Nossa Senhora da Vitória, uma carniçaria e uma albergaria para doentes e necessitados. Um pouco mais afastado estaria o cemitério judaico. Nesta zona, junto ao jardim da Menga, ainda persiste um local chamado de Fonte dos Judeus. Talvez houvesse Judeus fora desse bairro, mas os mesmos concentravam-se maioritariamente naquele bairro.


Capela de Nossa Sra. da Vitória, vista da R. do Corpo de Deus.


Para além da que hoje se chama Rua do Corpo de Deus, teria existido um "caminho que vai para a ermida do Corpo de Deus", hoje um curto beco à esquerda consoante se ascende pola rua actual, uma Rua de Moreira, referidos num documento de 1395 (Livro do Almoxarifado).


Local de acesso à R. do Corpo de Deus, na Judiaria Velha de Coimbra



Interior da R. do Corpo de Deus.


Segundo J. Pinto Loureiro, na sua obra Toponímia Coimbrã, a hoje Rua Corpo de Deus "...tem sido ao longo dos séculos sucessivamente Judiaria, Rua do Príncipe, Rua do Corpo de Deus, Rua Pedro Cardoso. A rua Corpo de Deus foi também denominada de Rua de Corpus Christi.



R. do Corpo de Deus, na Judiaria Velha de Coimbra.


Possivelmente as actividades económicas desenvolvidas pela comunidade judaica eram muito diversificadas. Enquanto algumas famílias se dedicavam a ofícios mecânicos (calçado ou marroquinaria), alguns Judeus mais abastados e influentes ocupar-se-iam das finanças (por ex. em arrolamento de moeda). Outras famílias dedicar-se-iam à agricultura nos férteis terrenos.



Arruamento da Judiaria Velha de Coimbra.


 

Localização da Judiaria Velha na planta de Coimbra, com reconstrução 
do traçado da muralha antiga.


Na actualidade a zona da Judiaria Velha está bastante descaracterizada devido à reforma de D. Fernando I, em 1370, que decidiu destruir o casario, após ter visto a judiaria e muralhas arrasadas nas guerras com Castela e demarcado um novo local para a judiaria.


Isto forçou os judeus a deslocarem-se para a chamada Judiaria Nova, mais afastada do centro, que ficou assim conhecida como a "judiaria do arrabalde"; estava situada perto do Rio Mondego. Apesar desta demarcação, a Judiaria Velha não foi totalmente abandonada. O Livro do Almoxarifado mostra que em 1395 aí havia casas "derrubadas", ou que estavam em "rossio", ou que jaziam "em chão", mas havia ainda casas habitadas por Judeus.



Arruamentos da Judiaria Nova de Coimbra.


Esta Judiaria Nova de Coimbra, é conhecida nos documentos da época como "judiaria do Sansão" ou "judiaria acerca de Sansão", por estar situada no local da actual Praça 8 de Maio (antigo Sansão). Embora não sejam conhecidos os limites exactos da Judiaria Nova de Coimbra, talvez tenha sido demarcada pelas ruas que hoje se chamam Rua Nova (desde o ano 1504), Rua Direita e Rua do Arco do Ivo, bem como pelo Terreiro e Travessa do Marmeleiro.


Calcula-se que na Judiaria Nova também tenha funcionado uma sinagoga (foram encontradas partículas de sal, usadas na purificação dos espaços), junto dum arco de pedra denominado Porta Mourisca, referida nos documentos do séc. XV como "Porta Mourisca para a Judiaria", talvez na confluência das actuais ruas Direita e de João Cabreira.



Local de confluência da R. Direita com a R. João Cabreira.


A construção da Judiaria Nova produziu-se para o lado da actual Rua da Sofia, com umas casas voltadas para a Rua Nova e outras para o Adro de Ivo, formando um largo ou pátio na zona interior, sendo possível que este pátio tivesse acesso por uma travessa que partiria da Rua Nova ou do Ardo do Ivo (ou por duas travessas partindo das duas ruas).



Ao fundo, R. Direita, vista da Pr. de Sansão (Pr. 8 de Maio).


Outro dos elementos que faz com que os limites da Judiaria Nova sejam difíceis de definir, é que a zona foi, em parte, destruída para abrir a Rua da Sofia.

Nos séculos XIV-XV o convívio entre Judeus e cristãos deteriora-se e os Hebreus passam a ser perseguidos. A ocorrência mais grave teve lugar em 1395, sob a liderança dum hierarca da igreja e vários sacerdotes.

Com o édito de expulsão dos Judeus de 1496, as autoridades político-religiosas permitiram a destruição do cemitério judeu de Coimbra e a venda das suas campas e lápides funerárias, apagando, desta forma, a que poderia ser a melhor fonte para resgatar a memória da Coimbra Judaica.

A partir do séc. XVI e ao longo de dos séculos, os Judeus seriam os alvos privilegiados da Inquisição. De facto, em Coimbra sediou um tribunal inquisitorial, um dos quatro que operavam em território português, além de Lisboa, Évora e Goa.

O Tribunal de Coimbra, que julgou muitos conversos distinguidos, processou mais de 11.000 casos entre 1541 e 1820. No total, por volta de duas centenas de pessoas teriam sido queimadas em praça pública, acusadas de crimes contra a igreja, por bruxaria e ausência de bons costumes e principalmente por judaísmo. Para além do “fogo” as sentenças incluíam ainda: a exposição em pelourinho, a forca, o esquartejamento, o garrote, o empalamento, os tratos de polé, as atormentações na roda. Por vezes praticava-se o corte de membros e da cabeça, com exposição no local do suplício até consumação, e também o sacrifício em estátua, por indesejada ausência do condenado. Outros ainda foram condenados ao cárcere perpétuo.


Assim sendo, no tecto da denominada sala das tormentas no Pátio da Inquisição de Coimbra subsiste ainda uma argola que servia para içar os prisioneiros, em sessões de tortura. Este edifício de funesta relembrança, acha-se na Alta e antes de passar para a Inquisição tinha servido como Colégio das Artes. À entrada do pátio, à direita, situavam-se os aposentos dos secretários, no topo ficavam os aposentos dos inquisidores, com um terraço avarandado com vistas, tendo por baixo a casa do tormento onde ficavam os cárceres.




Outro local da intolerância religiosa era a Praça do Comércio, onde decorriam os autos de fé. Na Rua de Sofia acima referida ainda é visível o local por onde passavam os prisioneiros da Inquisição, que eram executados à beira do rio.


Os processos da Inquisição duravam meses ou mesmo anos, durante o qual o acusado ficava detido na prisão. Considerando alegadamente que as acusações eram motivadas principalmente pelo desejo de confiscar e de apossar da propriedade do acusado, é de salientar que as profissões e ofícios mais frequentes dos processados foram, em ordem decrescente, sapateiros, comerciantes, fazendeiros, curtidores e tecelões. Relativamente à sua origem, os acusados procediam em grande número de Bragança, Braga, Porto, Viseu, Aveiro, Guarda e Coimbra.

A partir dos sermões pregados nos autos de fé, sabe-se que mães e avós foram responsabilizadas por manter práticas e crenças judaicas entre os conversos. Assim, durante o primeiro século da sua existência, a Inquisição de Coimbra julgou mais mulheres do que homens. Foi em 1781 que se realizaram os últimos autos de fé em Portugal: um em Coimbra, com 17 pessoas sentenciadas, e outro em Évora, com 8 sentenciados. 

Apesar desta repressão, Coimbra foi um centro considerável da comunidade judaica (marrana) nas décadas de 1530 e 1540. No século XVII António Homem, professor de Direito Canónico na Universidade de Coimbra, levou um conciliábulo de ilustres judaizantes marranos. Muitos marranos, para além de Homem frequentaram a Universidade de Coimbra, entre os quais, o distinguido dramaturgo e mártir, António José da Silva. Outros, como António Fernando Mendes, mais tarde convertido ao judaísmo em Inglaterra, fizeram parte do seu corpo docente.


Muitos dos cristãos-novos presos como judaizantes em Ferrara em 1581 eram refugiados da região de Coimbra. Três deles, incluindo Joseph Saralvo, que se gabava de devolver 800 marranos ao judaísmo, foram condenados à morte em Roma dois anos depois. 


Entre Novembro de 2008 e Abril de 2009 a divisão de museologia da autarquia promoveu um percurso cultural e uma exposição, sob o nome de "Coimbra Judaica", a fim de resgatar o património da presença judaica nesta cidade.

Este artigo foi elaborado por Manuela Videira, 
com texto adaptado de:

GoogleEarth

Outras fontes:

SARAIVA, José Hermano, História concisa de Portugal, Publicações Europa-América.

Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Volume II, Publicações Alfa.