segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Persistência na metamorfose






Só em Maio de 1773 se publicou em Portugal uma lei que extinguiu a segregação entre "cristãos velhos" e "cristãos novos". Mas foi preciso esperar até 1822 para se ver atirada para o arquivo dos horrores da História essa instituição de manipulação política e social do religioso chamada Santo Ofício. O sinistro tribunal (já existente em Espanha desde 1478) fora autorizado por Roma em 1547, mas a perseguição pelo poder real dos judeus iniciara-se décadas antes, com especial vigor a partir do seu baptismo forçado, decretado por lei de D. Manuel I datada de 1497, no seguimento das imposições decorrentes do seu casamento com uma filha dos Reis Católicos.





D. Manuel I.




Com a expulsão dos judeus de Castela, ordenada em 1492, todo o território português se transformara em campo de incontáveis multidões de refugiados, as quais – num primeiro momento – fixaram residência provisória nos terrenos limítrofes de muitas vilas e cidades da raia. Nem todos permaneceram, mas muitos foram aqueles que acabaram por se agarrar às terras de Trás-os-Montes, da Beira e do Alentejo – engrossando a população hebraica que já aí habitava, cuja presença comprovada por achados arqueológicos se pode remontar aos últimos séculos do Império Romano (embora existam indícios linguísticos e documentais que nos poderão levar a épocas anteriores).


As judiarias da raia portuguesa, tal como chegaram ao nosso tempo, são fruto de um palimpsesto arquitectónico e cultural. Com origem medieval – talvez nos tempos em que se iniciara a segregação de judeus e muçulmanos – apresentam uma identidade sedimentar. Se até ao século XIV judeus e cristãos viviam no mesmo espaço – embora os seguidores da Lei de Moisés tivessem as suas comunas, com espaços sociais e de culto próprios – a partir desse momento vêem-se obrigados a envergar vestuário distintivo e a 
viver em ruas separadas, fechadas por portas. As leis nem sempre eram cumpridas ou feitas cumprir, mas existiam. Pequenos comerciantes e/ou artífices, foram os fundadores de uma estrutura habitacional ligeiramente distinta, reconhecível pela existência de edifícios com duas portas: uma estreita (a de morada) e outra larga (a da oficina). Na ombreira do lado direito era colocada a "mezuzah", pequeno rolo com uma oração ritual (de que hoje sobram rasgos na pedra). Existiriam ainda, em todas as comunidades com mais de dez membros, constituídas enquanto comunas, a sinagoga e a escola.


Foi tudo arrasado com a conversão forçada em finais do século XV? Nem por isso. As sinagogas transformaram-se em habitações (como a pequena casa de oração de Castelo de Vide) ou em igrejas cristãs (a de Portalegre passou a "igreja de São Lourencinho"). As "ruas da Judiaria", sendo as mesmas, mudaram de nome (primeiro exemplo dessa lamentável mania de apagar a memória toponímica), passando a ser "ruas novas". Continuaram a demolir-se casas e a construir-se casas novas. O rasgo vertical nas ombreiras transformou-se numa cruz. Nos lintéis passaram a surgir, com abundância estranha, símbolos cristãos – não fizessem o diabo inquisitorial e a inveja das suas (e muitas vezes fizeram…). Esta metamorfose levou, até, à edificação na entrada de Castelo de Vide de uma capela a Vicente Ferrer, o pregador espanhol do século XV que marca presença também numa fonte pouco distante da "Rua Nova" portalegrense.









Antiga judiaria de Castelo de Vide.
Fotos - e-cultura.sapo.pt




São raras as vilas e cidades da raia portuguesa que não preservam a memória arquitectónica e/ou toponímica da sua antiga judiaria. Entre todas, é Castelo de Vide aquela que melhor transpira essa presença ancestral. O bairro que desce da fortaleza até à inigualável Fonte da Vila impressiona pela quantidade de portais góticos e renascentistas, pelas ruas íngremes, com recantos secretos, pelo olhar das suas gentes que – ainda há pouco tempo – continuavam a rezar, com os habitantes de uma aldeia próxima (Carreiras), orações judaicas ligeiramente cristianizadas, persistindo em costumes que não negam a sua origem.



A Civilização muda, mas a Cultura tende a persistir. Provam-no muitas judiarias. Prova-o a Cultura de muitos homens e mulheres da raia portuguesa.




Publicado em tradução na revista La imagen de Extremadura, nº 12.



RUY VENTURA (Portalegre, 1973) é professor na península da Arrábida, a trinta quilómetros de Lisboa. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem  (Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Organizou as antologias Poetas e Escritores da Serra de São Mamede (Vila Nova de Famalicão, 2002), Contos e Lendas da Serra de São Mamede (Almada, 2005), Em memória de J. O. Travanca-Rêgo e Orlando Neves (na revista Callipole, nº 13, Vila Viçosa, 2005) e o livro José do Carmo Francisco, uma aproximação (Almada, 2005). Traduziu a antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX (Coimbra, 2003) e os livros de poemas Dias, Fumo, de Antonio Sáez Delgado (Coimbra, 2003), Jola, de Ángel Campos Pámpano (Badajoz, 2003) e A Árvore-das-Borboletas, de Anton van Wilderode (Badajoz, 2003). É colaborador de várias revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente espanholas, brasileiras e americanas. Poemas e/ou livros seus estão traduzidos em castelhano, francês, inglês e alemão. Como ensaísta, tem escrito sobre Poesia Contemporânea, Literatura Tradicional e/ou Oral e Toponímia.
Coordena o blogue Estrada do Alicerce




de Ruy Ventura



alicerces1.blogspot.com




domingo, 7 de setembro de 2014

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Shabat Shalom









Aparar a barba...









Aparar a barba, cortar unhas ou o cabelo à sexta-feira é sinónimo de azar. Este ditado antigo baseia-se no receio que os cristãos-novos tinham em ser denunciados por um qualquer vizinho à Inquisição. Manter a higíene pessoal em preparação para Shabat, (sábado) era algo que poderia denunciar as suas práticas judaizantes, e consequentemente, um acto perigoso a partir dos finais do século XV.



domingo, 31 de agosto de 2014

Anónimo sefardita



A Consagração de Moisés, do grupo Cinco Siglos.








O Ferrador que em Torre de Moncorvo tocava às Trindades com o malho na bigorna do tronco.







Na praça do município, em Torre de Moncorvo, existe uma casa que tem insculpida no granito da ombreira da porta a data de 1709. Certamente que tal data corresponde ao ano da sua construção. Fazendo esquina da mesma praça com a antiga rua dos Mercadores, uma outra casa, que alberga no r/chão uma ourivesaria, terá sido construída na mesma época. Ambas foram reconstruídas ultimamente, mantendo a traça original. Aliás, nenhuma alteração de monta terão sofrido estas edificações nestes três séculos, tanto ao nível dos espaços habitacionais como nos espaços comerciais.


Mais difícil será tentar reconstruir as edificações que ali existiam antes daquela data e a ambiência do sítio. Apesar da dificuldade, propomos um exercício de imaginação, baseados nas informações colhidas em um processo da Inquisição, referente a Henrique Rodrigues, ferrador de profissão. É que, pelos anos de 1647, as duas casas seriam dele, conforme consta do inventário de seus bens, assim registados:- Disse que possui uma casa sobradada na praça da vila de Moncorvo (…) que parte com a mesma praça e da outra banda com casa de Francisco de Araújo, que comprou ao fisco e vale 25 mil réis.


Tem outra casa na mesma praça, na entrada da rua dos Mercadores, que é foreira ao licenciado João de Góis, que lhe paga mil réis cada ano, que parte com as sobreditas casas e com outras de Luís Correia, as quais valerão 16 mil réis cada ano.Este Luís Correia de Paiva foi exactamente um dos denunciantes de Henrique. Era também cristão-novo e confirmou que as casas eram contíguas e que havia um buraco na parede por onde espreitava o que os outros faziam e que os via fazer cerimónias judaicas, nomeadamente às sextas-feiras à tarde: varrer a casa, limpar as candeias, meter torcidas, vestir camisas lavadas… que os ouvia falar…
E disse estar lembrado de os ouvir comentar a morte de Manuel Henriques Pereira nas fogueiras da Inquisição, dizendo que morreu como mártir da religião judaica. E de ter ouvido a mulher do ferrador a dizer para este: - Agora que vem o nosso jejum da rainha Ester, é preciso comprar grãos. De outra vez que ouviu o ferrador dizer para a mulher: - Estes cães não mos querem deixar, já nos caíram na trinca, mas nem por isso hei-de deixar de fazer o meu ofício.
Efectivamente não eram só os “cães” dos cristãos-velhos, como os familiares da Inquisição Francisco Gouveia Pinto e Pedro saraiva de Vasconcelos, mas também os vizinhos “judeus” como o Luís Correia que contou ainda ter sido apanhado pela mulher do ferrador a espreitar, a qual veio para a janela a “gritar à d´el-rei que a ameaçava com Coimbra” .
Por outro lado, o senhorio de uma das casas, João de Góis, advogado, disse que a morada do ferrador tinha paredes-meias com a de Francisco Brandão. Certamente que era da outra banda, do lado da rua do Cano. E o curioso é que também nos aparece uma testemunha a dizer que havia um buraco entre as duas casas, por onde comunicavam.






Quanto ao facto de a casa ter sido comprada ao fisco, devemos concluir que ela pertencera antes a algum cristão-novo que foi preso pelo Santo Ofício e por isso lhe foi sequestrada para o fisco. Podemos então concluir que aquele conjunto de casas que por 1650 davam para a praça, sitas entre a rua do Cano e a rua dos Mercadores era todo ele habitado por cristãos-novos. E esta constatação é importante. Desde logo porque nos mostra que é necessário ter em conta a arqueologia judaica nos estudos de desenvolvimento urbano da vila de Torre de Moncorvo, como, aliás, na generalidade dos centros urbanos tradicionais de Trás-os-Montes, coisa completamente desprezada entre nós.
A existência de buracos e também de janelas e portas interiores de comunicação entre as moradias contíguas era um fenómeno característico dos blocos habitacionais dos cristãos-novos, sempre obrigados a esconder as suas coisas e o seu modo de viver, no seio da própria família e a estar sempre preparados para a fuga.
O processo não é esclarecedor sobre a localização do tronco e da oficina do ferrador. Esta, constituída pela forja, com o respectivo fole e pela bigorna, era certamente no interior da edificação. O tronco, construído com uns toros e uns casqueiros transversais, podia ser fora, ocupando um pedaço do terreiro. Será que, na reconstrução setecentista dos edifícios ficou um deles mais recuado, correspondendo exactamente ao espaço do tronco de ferrar? É uma possibilidade. E muito interessante de contar a quem hoje se senta no poial de granito ali existente. Aliás, das notícias que temos sobre troncos de ferrar em Torre de Moncorvo, verifica-se que todos eles se situavam em espaços nobres da vila: na esquina da rua das Flores e no “largo das bestas”, junto à muralha, ao início da rua Tomás Ribeiro.
Imagina-se assim o colorido que o tronco do ferrador acrescentava à praça do município: as sonoridades variadas de malhos e martelos batendo na bigorna ou nos cravos das ferraduras, o relinchar dos cavalos, o zurrar dos burros e o muar dos bois. E a gente que sempre se juntava neste tipo de oficinas, observando as artes de ferrar, ajudando a tocar o fole, examinando os animais, trazendo e levando novidades.
E aquele ferrador era um malandreco, podem crer. Gostava de brincar com coisas sérias. À tardinha, à hora das Trindades, punha-se a imitar o sino da torre da matriz, batendo com o malho na bigorna, 3 pancadas. Depois parava e de novo 3 pancadas, igualmente compassadas. E nova pausa e mais 3 pancadas.
E este foi um dos crimes que o levaram à prisão: o de ridicularizar o cerimonial cristão do tocar às Trindades:
Outra acusação respeitava à guarda do sábado. Assim, no dizer de Francisco Gouveia Pinto, cristão-velho, familiar do Santo Ofício, “viu ele testemunha trazerem-lhe, em dias de sábado, cavalgaduras para ferrar e ele não querer, dizendo que não tinha ferragem aparelhada”. E viu que normalmente “aos dias de sábado anda pela vila sem assistir ao banco. E aos domingos, antes da missa, ferra”. Esta acusação foi confirmada por outras testemunhas, nomeadamente por Luís Correia, dizendo que “aos domingos conserta a ferragem sem haver cavalgaduras à sua porta”.
O testemunho daquele familiar da Inquisição acrescenta ainda um pormenor interessante que nos permite saber que na loja do ferrador havia uma escada de acesso ao piso superior, de habitação. Com efeito, disse ele que ao sábado, a mulher do ferrador se punha “sentada na loja, no topo da escada e andava mais composta da cabeça e rosto, com tralha lavada”.
Eram denúncias bastantes e confirmadas por várias testemunhas e, por isso, Henrique Rodrigues e sua mulher, Susana Mendes foram presos e levados para Coimbra onde se juntaram mais acusações. Uma delas partiu de Brás do Canto, alcaide da prisão, segundo o qual o ferrador mandava e recebia recados, usando métodos e códigos, os mais diversos, como o de desenhar uma ferradura no nabo que era para fazer o caldo, “um sinal de uma ferradura e um bocado abocanhado e cravado com 6 cravos de pão”.
Seria por acaso que lhe deram por companheiro de prisão um tal Bernardo Gama, ferrador de Bragança? Ou para o incentivar a falar, pois que o outro tinha já admitido e confessado as suas culpas? A verdade é que também o Bernardo denunciou aos inquisidores estranhas formas de comunicação usadas por Henrique na prisão: bater nas paredes ou no soalho, a modos de linguagem telegráfica ou fazer com que da cozinha “lhe vieram 3 ovos e um deles era cru, vinham 12 os, que queria dizer que 12 pessoas tinham vindo presas”.
Curioso que do inventário das coisas do ferrador constavam “dois livros da Lusitânia, um livro de Comédias e outro livro que se intitulava os Conceitos Espirituais, que todos valiam 800 réis. E tem outro livro que trata da batalha naval e que vale 12 réis”.
Para além de ferrador, Henrique Rodrigues era também cobrador de rendas e de dívidas mal paradas ou de senhorios de fora da terra, como era o caso de mariana Mendes, de Murça, que lhe fizera procuração para lhas cobrar. E trazia ainda arrematadas por 75 500 réis as sisas das correntes da Torre de Moncorvo, ou seja, o imposto dos mesteres e o do real de água, imposto pago pela carne e pelo vinho que se comprava.
Decorreu o processo com a normalidade inquisitorial e Henrique Rodrigues acabou por confessar suas culpas e denunciar os que com ele haviam judaizado, incluindo os seus vizinhos Luís Correia de Paiva e Francisco Brandão, cujas casas comunicavam com a dele. E ditou para o processo algumas das orações que rezava. Vamos transcrever uma delas:



Sol de dia não me ferirá
Lua de noite não me empeçará
Que Adonay me guardará;
Guardar-me-á minha alma
Será minha defensão
Guardar-me-á ao meu deitar
Ao meu levantar
E ao meu entrar
E ao andar pela carreira.



FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8044, de Francisco Rodrigues.


Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade