segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Comemoração do nosso Tu B' Shevat!



Tu B’ Shevat 5774


A Catarina

Este ano decidimos premiar Lisboa na escolha do espaço para a nossa plantação. O espaço escolhido foi o Instituto Superior de Agronomia, na Tapada da Ajuda. Um local belíssimo que reúne todas as condições e respectivos cuidados para o desenvolvimento saudável do nosso cedro.




Queremos em primeiro lugar, agradecer à Dra. Teresa Vasconcelos, que nos permitiu a realização deste evento neste espaço, demonstrando desde o início uma total disponibilidade e acompanhamento. À direita a foto da dra. Teresa Vasconcelos.



E agora vamos dar início à nossa plantação!

Apesar do buraco para a nossa árvore já estar aberto (cortesia do Instituto), o Filipe Craveiro decidiu dar mais um jeitinho à terra!


O Juvêncio sempre pronto a colaborar e já de garrafão com a água para a rega, enquanto todos os outros estão atentos ao nosso pequeno cedro. A Ziva (acho que foi para fugir ao trabalho, fingiu estar a tirar fotos) e tenho ainda de dizer que ela nem sabe mexer na máquina…mas ok, vamos fingir que acreditamos!!!!

E agora tudo à mistura, porque o que interessa mesmo é a realização da plantação!




Aqui podemos ver o João (inspector); O Carlos (filósofo); O Rafael (fotógrafo); o Filipe (O Feliz) e por fim a Catarina (a trabalhadora). 


Os observadores: Filipe Craveiro; Dra. Teresa Vasconcelos e Paula Rodrigues.


A Sónia e a Paula Bilé não aparecem na terra junto ao cedro por razões óbvias, a Sónia está de bengala e não convém ir para terreno instável, já a Paulinha…é porque estava carregada com o casaco do Rafa e cansadíssima. Ok, não é verdade, a Paulinha estava a fazer companhia à nossa Sónia! J


Já com a missão cumprida e no caminho de volta, o tempo ainda nos ameaçou com umas gotinhas…mas não cumpriu e manteve-se muito agradável.


E por fim, os participantes do Espaço Isaac Abravanel, da direita para a esquerda: Jacinto, Paula Rodrigues, João Pedro, Filipe Leal, Juvêncio, Paula Bilé, Filipe Craveiro, Sónia, Ziva, Rafael, Carlos, Catarina e na foto de baixo, o grupo com a Dra. Teresa Vasconcelos.

O dia ainda continuou, mas a fotos pararam por aqui, sendo que vou agora aproveitar para vos dar a conhecer um pouquinho da História deste instituto que aconselhamos vivamente a visitarem.


Fundado em 1852, o Instituto Superior de Agronomia (ISA) MHIP é uma escola de graduação e pós-graduação em Ciências Agrárias, sendo o seu know-how reconhecido nacional e internacionalmente.
Com 155 anos de experiência, adapta o seu ensino à evolução tecnológica e à realidade do País, apostando na qualidade e modernização do mesmo. Integrada em 1930, Universidade Técnica de Lisboa, foi em 2013 integrado na nova Universidade de Lisboa, resultante da fusão da anterior UL com a Universidade Técnica de Lisboa. Tem cerca de 1500 alunos nos 3 ciclos de ensino, um corpo docente de 147 professores e 6 investigadores, dos quais 137 doutorados.

Localizado na Tapada da Ajuda de Lisboa desde 1917, - Parque Botânico e Ambiental com cerca de 100 ha, de reconhecido interesse - é também um local convidativo para a realização de eventos, de actividades lúdicas e para a descoberta de locais cativantes como sejam o Anfiteatro de Pedra, o Miradouro, o Jardim da Parada, o Campo de Rugby, o Observatório Astronómico de Lisboa, o Pavilhão de Exposições, o Auditório da Lagoa Branca, entre outros.



Fizemos ainda uma pequena homenagem ao pai do nosso amigo Filipe Leal, que se encontra hospitalizado e neste momento já em franca recuperação, dedicando-lhe um momento de oração pelas rápidas melhoras.



Fontes:

Espaço Isaac Abravanel
Instituto Superior de Agronomia
Fotos de Rafael Baptista e Paula Rodrigues

Neste dia aconteceu!




72 anos era realizada a Conferência para a:

“Solução final da questão Judaica”



Em 20 de janeiro de 1942, quinze oficiais de alto escalão do governo alemão e do Partido Nazi reuniram-se numa mansão chamada Wannsee, num subúrbio de Berlim, para discutir a implementação do que foi batizado como a "Solução Final da Questão Judaica". "Solução Final" era o codinome para a aniquilação física, sistemática e deliberada, de todos os judeus europeus. 


Em 1941, Adolf Hitler autorizou aquele plano de extermínio em massa.


Reinhard Heydrich, general das SS, convocou a Conferência de Wannsee com o intuito de, 1º informar o assunto colocado para discussão entre os participantes e garantir o seu apoio para a implementação da "Solução Final", e 2º para revelar que o próprio Hitler o havia nomeado Heydrich no Escritório Principal de Segurança do Reich para coordenar aquela operação.



Os presentes à Conferência sequer discutiram se o plano deveria ou não ser implementado, limitaram-se a discutir sua implementação. Por ocasião da Conferência de Wannsee, a maioria dos participantes já estava ciente de que o regime nazi havia iniciado o extermínio em massa de judeus e de cidadãos de outras etnias em áreas da União Soviética e da Sérvia ocupadas pela Alemanha.




Nenhum dos oficiais se opôs à política da Solução Final anunciada por Heydrich. Os representantes das Forças Armadas da Alemanha e das Ferrovias do Reich não estiveram presentes naquela reunião. No início de 1941, as SS a polícia já tinha negociado acordos com o Alto Comando do Exército alemão o assassinato de civis, incluindo judeus soviéticos, antes da invasão da União Soviética. No final de setembro de 1941, Hitler autorizou as Ferrovias do Reich a transportarem judeus alemães, austríacos e tchecos para determinados locais na Polónia e União Soviética, onde as autoridades alemãs completariam a tarefa matando a grande maioria dos prisioneiros.





Heydrich indicou que aproximadamente onze milhões de judeus europeus seriam submetidos às provisões da "Solução Final". Naquele número ele incluiu não só os judeus que moravam em áreas da Europa controlada pelos nazis, mas também as populações judaicas do Reino Unido e de outras nações neutras, tais como a Suíça, a Irlanda, a Suécia, a Espanha, Portugal e a parte da Turquia europeia. 





Apesar dos eufemismos que aparecem nos protocolos daquela reunião, o objetivo da Conferência de Wannsee era muito claro para todos seus participantes: coordenar a política de genocídio voltada à aniquilação total dos judeus europeus.



Interior da casa onde se realizou a Conferência de Wannsee



Artigo elaborado e enviado por

Carlos Baptista



Obrigada pela tua participação J




Fontes:


sábado, 18 de janeiro de 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A presença dos Judeus em Carção



"A Capital do Marranismo"


Carção - Rio Sabor


Carção é uma freguesia portuguesa do concelho de Vimioso, no distrito de Bragança, região Norte de Portugal e sub-região do Alto Trás-os-Montes com 27,60 km² de área e 419 habitantes (2011), densidade: 15,2 hab/km². Situa-se no nó de convergência entre as aldeias de Argozelo e Santulhão, e é passagem obrigatória para quem se dirige à sede de concelho, da qual dista dez quilómetros. Tem por limites as freguesias de Argozelo, Pinelo, Vimioso, Santulhão e terras do concelho de Bragança. 

Não tem anexas, mas outrora compreendia cinco casais no rio Maçãs e onze moradores na Quinta da Veiga. Pertenceu ao antigo concelho de Outeiro, extinto em 1855, tendo passado a integrar o concelho de Vimioso.1



Neste local, em 1651, foi justiçado Francisco Mendes, natural do lugar de Carção. Foi condenado à morte e enforcado na Vila de Outeiro, por ter assassinado Gaspar Gonçalves, juiz de Carção. O seu crime foi acrescido por ter despedaçado «com hua fouce roçadoura hua imagem de Christo». No meio do povo de Carção, numa grande lápide de granito cravada no solo, junto a uma fonte, está uma inscrição referente a Francisco Mendes. 





Naquele sítio estavam as casas de habitação do assassino, as quais foram mandadas arrasar e salgar pela barbaridade do crime. Os seus bens foram confiscados para a Coroa, ficaram também os seus descendentes incapazes de obter qualquer ocupação até à quarta geração.



Ponte Romana sobre o Rio Maças


Os habitantes de Carção estão ligados ao comércio desde tempos muito antigos. Um grande número dos seus habitantes é descendente de judeus que se refugiaram no século XV nas aldeias raianas. A importância do legado judaico revela-se no símbolo da junta de freguesia de Carção que tem no brasão uma mezuzá e uma menorá, o candelabro de sete braços, um dos mais antigos símbolos judaicos.




Brasão da Freguesia de Carção


A partir do século XV e XVI iniciou-se o seu maior povoamento. Este facto ficou a dever-se à expulsão dos judeus de Espanha pelos Reis Católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão (Decreto de Alhambra de 1492). Assim, entraram em Portugal milhares de pessoas e, pelo lado de Miranda do Douro, calcula-se que tenham entrado cerca de 3000 pessoas. Inicialmente fixaram-se num local chamado Prado das Cabanas, quatro quilómetros a leste de Vimioso, dispersando-se depois, pouco a pouco. Uma vez que Carção estava bem situada e tinha feira todos os meses, aqui chegaram muitas pessoas de origem judaica, trazendo com elas uma nova cultura e uma nova economia.



Praça antiga de Carção


As tabernas e os talhos eram alguns dos negócios que pertenciam à comunidade judaica. As famílias de negociantes de Carção instalaram-se na zona da praça e os seus estabelecimentos não eram frequentados por lavradores.



Praça nos anos 60




A praça de Carção guarda memórias dos tempos de perseguição por parte da Inquisição, que condenou à fogueira cerca de 18 pessoas da aldeia. Consequentemente, para safar da morte, muitos Judeus converteram-se por fora, para mostrar que já eram cristãos, quando na realidade ainda viviam o verdadeiro espírito judaico. 



Este fenómeno é designado de “Marranismo”. Tudo leva a crer que os judeus usavam as alheiras, produto alimentar da zona, para mostrar que já eram cristãos, logo comiam carne de porco, quando, na realidade, eram feitas, apenas, de pão e aves.



Pedra com símbolos judaicos


Implantada mesmo no centro de Carção, hoje a “Taberna TAI” é um símbolo vivo dos tempos em que os Judeus dominavam o negócio na praça. O edifício centenário, que passou de geração em geração, foi recuperado segundo a traça original e, agora, acolhe pessoas de todos os estratos sociais. Aqui ouvem-se histórias dos tempos em que o cristianismo e o judaísmo dividiam a população e, em tom de brincadeira, até se fazem comentários sobre as pessoas que ainda têm ar de judeus.


Os tempos passaram, as mentalidades mudaram e as práticas judaicas que ainda poderão existir fazem, apenas, parte da intimidade de cada um. A proprietária da taberna, Laura Tomé, de 57 anos, afirma que não tem grandes memórias dos tempos áureos do judaísmo, mas sabe que a “Taberna TAI” foi uma das primeiras a surgir em Carção. “Este negócio já vinha do meu sogro, que pertenceu a uma família que tinha taberna e talho”, recorda ela.


“A aldeia estava dividida. Os judeus tinham os seus negócios na zona da praça, ao passo que os lavradores viviam no cimo do povo e só frequentavam os comércios e cafés da sua zona. Quando os lavradores desciam, o que, por norma, acontecia ao fim-de-semana, havia pancadaria”, recorda o presidente da Junta de Freguesia de Carção, Marcolino Fernandes. Com 76 anos, o autarca afirma que ainda viveu no tempo em que as rivalidades entre cristãos e judeus estavam bem vincadas. “Embora eu fosse lavrador, vivi sempre no meio dos Judeus. O meu pai esteve três anos em França e quando regressou comprou uma casa mesmo no centro da praça, o que para os judeus foi uma afronta. Por isso, desde pequeno que fui assistindo às rivalidades”, frisa o carçonense.



O estado em que estava o edifício que é hoje o  Museu Judaico


 Para reivindicar as tradições e vestígios dos judeus, está em fase de conclusão um Museu dedicado às tradições judaicas. Promovido pela Associação Almocreve, este espaço vai ter dois pisos: um para exposições temporárias e outro dedicado ao judaísmo. O museu fica mesmo no centro da praça de Carção, onde ainda se encontram outros vestígios judaicos.



Faça aqui uma visita virtual ao Museu:



Fontes:

(1 - Paróquia de Carção. Arquivo Distrital de Bragança. Página visitada em 10 de Outubro de 2013).

Consultar este blogue para informação mais detalhada:


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fernão Mendes Pinto



PEREGRINAÇÃO


Frontispício da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, 1614


Falar de Fernão Mendes Pinto é falar da Peregrinação, de tal forma homem e obra estão ligados. Pouco se sabe da sua vida, para além de que nasceu e morreu em Portugal, passou vinte e um anos na Ásia e escreveu um livro – Peregrinação -, publicado em 1614 (trinta e um anos após a morte do autor). 



Descobrimentos Marítimos Portugueses - Planisfério Cantino, 1502


    A vida de Fernão Mendes Pinto abrange quase todo o século XVI, uma época que foi palco tanto da gloriosa ascensão, como da decadência da nação portuguesa. Por altura do seu nascimento (1509?-1511?), o Império Português estava espalhado ao longo de uma linha que ia da costa do Brasil às da África Ocidental e Oriental, à Pérsia, à costa do Malabar na Índia, ao Ceilão e aos arquipélagos da Malaia e das Molucas. Quando Fernão Mendes Pinto morreu, em 1583, Portugal tinha perdido a sua independência, absorvido pelo império de Filipe II, rei de Espanha (Filipe I de Portugal). 

    Pensamos ser apropriado introduzir aqui duas peças musicais que ilustram, a primeira, o apogeu do Império Português no reinado de D. João III, e a segunda, a derrota do exército português em Alcácer-Quibir, comandado por D. Sebastião, que conduziria à perda da nossa independência: “Pardeos bem andou Castella” e “Puestos estan frente a frente”. 



Carlos V e Isabel de Portugal, retratados por Tiziano


“Pardeos bem andou Castella” é referida como uma “Portuguesa folia” na peça de Gil Vicente “Templo d’Apolo”, estreada na partida de D. Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, para Castela, quando casou com o Imperador Carlos V, em 1526.

Pardeos bem andou Castela/pois tem rainha tam bela
(…)
Pardeos bem andou Castela/com toda sua Espanha
pois tem rainha tam bela/emperatriz d’Alemanha



Segréis de Lisboa – Música para o teatro de Gil Vicente – Pardeos bem andou Castella



D. Sebastião, retratado por Cristóvão de Morais, c. 1572-74


     “Puestos estan frente a frente” (romance) faz parte da obra “Miscelânea”, de Miguel Leitão d'Andrade, publicada em 1629; narra a Batalha de Alcácer-Quibir, ocorrida em 1578, na qual o rei português D. Sebastião perdeu a vida. 

Puestos estan frente a frente/Los dos valerosos campos
Uno es del Rey Maluco/otro de Sebastiano el Lusitano
(…)
Busca la muerte en dar muertes/Sebastiano el Lusitano
Diziendo ahora es la hora/Que “Un ben morir, tutta la vitta honora”



Gérard Lesne - O Lusitano: Puestos estan frente a frente




     Fernão Mendes Pinto informa-nos logo no início da longa narrativa da sua peregrinação de que «(…) até à idade dos dez ou doze anos vivi na miséria e na estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho (…)». Deduzimos que nasceu algures entre 1509 e 1511, conforme palavras do próprio ao afirmar que tinha dez ou doze anos quando morreu o rei D. Manuel I, no dia de Santa Luzia, a 13 de Dezembro de 1521.

     A família de Fernão Mendes Pinto, embora pobre, será remotamente aparentada com os poderosos Mendes (Francisco e Diogo Mendes) de Lisboa e Antuérpia, cristãos-novos a quem a coroa portuguesa concedera o monopólio do comércio das especiarias, nos começos do século XVI. Talvez isto explique o tio que o levou para Lisboa e o colocou ao serviço de uma senhora da nobreza. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal ao serviço da casa do fidalgo Francisco de Faria e a partir de 1527 é moço de câmara na Casa de D. Jorge de Lencastre, Mestre da Ordem de Santiago e filho natural de D. João II. 




   É em 1537 que embarca para a Índia, tentando a sua sorte em terras do Ultramar. A partir daí, pelo espaço de vinte e um anos, Fernão Mendes Pinto vive aventuras que virá a descrever ao longo dos 226 capítulos da sua Peregrinação. Relata massacres terríveis, tendo muito provavelmente participado em alguns deles; diz-nos que foi escravo, soldado, negociante, embaixador, missionário, corsário… «fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desaventurados sucessos que atrás no decurso desta minha tão longa peregrinação largamente deixo contados» (Cap. 226).











Portugueses no Japão, Biombo Namban, séc. XVI/XVII


    Nas suas andanças pela Ásia, viveu em Malaca, em Pegu (Birmânia) e no Sião. Depois, andou pelos mares da China em viagens de negócios e sabe-se que fez quatro ao Japão. Nesta fase da sua vida, que está relativamente bem documentada, há informação de que juntou uma fortuna considerável; é como negociante abastado que conhece S. Francisco Xavier na sua terceira viagem ao Japão, em 1551, tendo emprestado dinheiro àquele missionário para a construção da primeira igreja cristã em terras nipónicas.

     Em 1554 decide regressar à pátria, mas enquanto permaneceu em Goa foi tomado de um fervor místico que o levou a doar grande parte dos seus bens à Companhia de Jesus, que o acolheu como noviço. Foi nestas circunstâncias que integrou uma missão evangelizadora ao Japão (totalmente custeada por si), que no entanto resultou em fracasso. 












Rua Direita em Goa, 1596, Jan Huygen van Linshoten


     Entre esta última viagem ao Japão e o regresso a Goa, em 1557, Fernão Mendes Pinto decide afastar-se da Companhia de Jesus, ao que tudo indica a seu próprio pedido e amigavelmente. Regressa a Portugal em 1558, era D Catarina rainha regente, e durante quatro anos e meio andou empatado na corte na expectativa de uma compensação pelos serviços prestados à Coroa. Vendo as suas pretensões frustradas, retira-se para uma pequena propriedade que possuía no Pragal, perto de Almada; casou, constituiu família, e entre 1569 e 1578 escreveu a sua Peregrinação. Morreu em 1583, apenas três meses depois de ter recebido um modesto estipêndio da Coroa, em reconhecimento dos serviços prestados a Deus e ao Rei. 




    Parece ser intencional, e não por acidente, que Fernão Mendes Pinto omite aspectos da sua vida na Peregrinação; sob a aparência de um romance de aventuras onde é difícil separar o real do imaginário, a obra revela-nos uma crítica à sociedade do seu tempo, uma denúncia às atrocidades cometidas, hipocrisias e falsa religiosidade, que Fernão Mendes Pinto testemunha, embora de forma indirecta, por razões tão evidentes como a Censura e a Inquisição.

     A ideologia da Cruzada foi a força unificadora mais importante da história de Portugal na época dos descobrimentos. Mas essa ideologia era marcada por uma intolerância a que o autor de Peregrinação foi profundamente sensível, como podemos constatar nos exemplos que se seguem: 

Palavras de um menino raptado a seus pais, e que os portugueses captores tentavam doutrinar:

— Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi louvar a Deus despois de fartos, com as mãos alevantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu sem satisfazer o que têm roubado; pois entendei que o Senhor da mão poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dous pecados tão graves quanto despois de mortos conhecereis no rigoroso castigo de Sua divina justiça. (Cap. 55)

     Palavras dos tártaros acerca do procedimento dos portugueses:

— Conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria dá claramente a entender que deve de haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.
     A que o velho, que se chamava Raja Bendão, respondeu:
— Assim parece que deve ser, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas por adquirirem o que Deus lhe não deu, ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes faz esquecer a sua pátria, ou a vaidade e a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha por ela negam a Deus e a seus pais. (Cap. 122)



Rua Direita em Goa, (detalhe) 1596, Jan Huygen van Linshoten


    Durante os vinte e um anos que viveu na Ásia, Fernão Mendes Pinto teve uma vida activa, recheada de aventuras e, porventura, alheada das restrições políticas e religiosas que estavam a ser gradualmente impostas na sua pátria.

     Por outro lado, o contacto estreito com as religiões asiáticas, tradicionalmente tolerantes, ter-lhe-á permitido amadurecer ideias e atitudes. Na sociedade multirracial da Índia portuguesa, é possível que tenha estabelecido contactos com o Judaísmo, através da antiga comunidade judaica que ali se radicara muito antes da chegada dos portugueses. 

     De uma forma ou de outra, Fernão Mendes Pinto chegou a uma filosofia que se fundamenta na moral dos Dez Mandamentos; crê no princípio do livre arbítrio, na assunção da responsabilidade pelos próprios actos; rejeita o mito do deus da tribo que aceita quebrar os seus próprios mandamentos e a prática de actos imorais contra membros de uma qualquer sociedade, independentemente da sua raça, credo ou cor.

     Podemos assim concluir que a Peregrinação é, antes de mais, um apelo à tolerância racial e religiosa. 



Arte indo-portuguesa, Goa, Nª Senhora da Palma, (detalhe) séc. XVII


    Terminamos este artigo com um exemplo musical que é fruto do cruzamento de duas culturas: a portuguesa e a indiana. Trata-se da canção mariana Senhora del mundo (que Gil Vicente incluiu no seu Auto da Feira, representado “ás matinas do Natal, na era do Senhor de 1527”), numa interpretação da saudosa Montserrat Figueras, acompanhada por saltério e instrumentos musicais indianos. 



“…a mágoa que eu tenho de ver o muito que por nossos pecados nesta parte perdemos e o muito que pudéramos ganhar…”
Fernão Mendes Pinto



Notas:
1 - O Planisfério Cantino é uma carta náutica que representa os descobrimentos marítimos portugueses. Deve o seu nome a Alberto Cantini, que a obteve clandestinamente em Lisboa, em 1502, para o seu empregador, Ercole I d’Este, duque de Ferrara.
2 - Carlos V e Isabel de Portugal são pais de Filipe II de Espanha (I de Portugal) e avós de D. Sebastião.



Este artigo foi elaborado e enviado por
Sónia Craveiro
 
Muito obrigada pela partilha J

Fontes:
CATZ, Rebecca, A sátira social de Fernão Mendes Pinto – análise crítica da Peregrinação, Prelo, Lisboa, 1978;
PINTO, Fernão Mendes, Peregrinação, Publicações Europa-América, 1983;
NERY, Rui Vieira, Música para o teatro de Gil Vicente, Portugaler.